O Duo e o Uno

Em determinadas atividades artísticas, tais como a Música, o Teatro e o Cinema, existem o envolvimento do coletivo para sua realização e performance. O mesmo não ocorre nas Artes Visuais, a gênese ocorre individualmente. Com frequência os artistas visuais produzem isolados, ensimesmados em suas pesquisas, cada um em seu próprio ateliê. Entretanto, muitas vezes, a técnica da calcografia une artistas com poéticas individuais distintas, em torno de um espaço de atelier compartilhado. A gravura é uma atividade gregária.

De modo geral, os procedimentos técnicos da gravura em metal são bastante sedimentados, não há inovação significativa, são praticamente os mesmos desde o surgimento da técnica no século XV. Diferentemente da urgência da atualidade, o processo da gravura envolve a morosidade da artesania em todas as suas etapas, por este motivo, tem seu próprio tempo para acontecer, lento. Destaco que não há nenhuma tentativa e nem necessidade de uma “transgressão” da linguagem. É importante constatar o lugar de evidência que a técnica da gravura ocupa no panorama atual das artes visuais brasileira. Este procedimento vive hoje um momento muito profícuo na produção artística nas cidades, com sua produção ativa em diversos espaços; ateliês institucionais, coletivos e individuais. Constato seguramente que vivemos um novo momento no uso da técnica da gravura, com muitos artistas jovens produzindo com qualidade esta modalidade de fazer artístico.

Especificamente estes dois artistas aqui nesta exposição, são veteranos e com extensa carreira de produção artística, se conhecem há muitos anos e já participaram de diversas exposições juntos, têm um convívio e sólida relação de amizade. Atuam não somente na área da gravura, mas também notadamente com obras na linguagem pictórica. Décio Soncini tem uma abordagem pessoal ligada à figuração, sua poética é calcada em aspectos da representação de temas pessoais, pertencentes ao seu universo visual afetivo; cenas, interiores, objetos, exteriores, plantas, paisagens, etc. São imagens nostálgicas e auto referentes, recheadas com elementos simbólicos ligados à sua vivência. Sua poética se mostra mais “solar”, com uma carga positiva em suas abordagens. Outra característica que me chama a atenção em suas gravuras é que consegue fazer uma transposição das sutilezas cromáticas de suas pinturas para tonalidades de cinzas da gravura. Em suas produções, Jacques Jesion, apresenta predominantemente imagens com um viés e espírito construtivo, muitas vezes estruturadas em tramas, todavia nesta ordem compositiva se mostram figuras com uma racionalidade incerta. Sua gestualidade é construída. Os planos e espaços são organizados por uma geometria sensível, predominantemente num clima deveras turvo e sombrio.  Arranjos formais que remetem ao urbano e as formas arquitetônicas, à paisagem de uma cidade indeterminada. A ordem e o caos convivem simultaneamente neste embate da composição.

O titulo da mostra, Dueto, é uma referência a apresentações musicais, um dueto ou duo (do latim: duo, ae, o, "dois", "duas"), uma composição executada por dois músicos ou cantores. A semelhança desta alusão, os artistas mostram obras individuais, mas também são exibidas gravuras executadas "a quatro mãos". À primeira vista, esta união improvável de estilos aparentemente díspares nos parece incerta e fadada ao fracasso. Entretanto, como eles mesmos relataram, o desafio surgiu da amizade e convívio, como uma “provocação”. Nos surpreende o resultado da inusitada parceria, pela integração das soluções plásticas obtidas. Podemos dizer até que “rola uma química” entre as diferenças poéticas apontadas. Um pouco como se fosse o yin e yang, conceitos e abordagens opostos que se unem plasticamente, numa interação plena de complementaridade. Distintos, mas visualmente se completam em uma profícua simbiose. Com suas obras, Soncini e Jesion demonstram que não estão ensimesmados, mas ao contrário, estão dispostos a interagirem entre si de maneira fecunda. O que vemos aqui são dois excelentes artistas e gravadores em afinada sintonia, o duo se transforma em uno. Quiçá houvessem mais exemplos deste tipo de salutar procedimento, o qual envolvem a relação de amizade e o companheirismo tendo como resultado o trabalho artístico.

 

Sergio Niculitcheff 2025

 

   

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Décio Soncini



Currículo artístico



Antonio Zago - Revista "Isto É" - abr./1982 



Alberto Beutemüller - Revista Visão/abr. de 1982 



Enock Sacramento - Exposição - 1985 / Apresentação



Olívio Tavares de Araújo - Exposição - 1988 / apresentação



Radah Abramo - Revista "Isto É" - março/1989 



Walter de Queiroz Guerreiro - Exposição - 1993 / Apresentação



Artigo publicado no jornal "A Noticia" em outubro de 2003



Walter Queiroz Guerreiro - Inédito - Maio/2008 



Raul Forbes - Apresentação da exposição "Paisagens" - setembro/2011 



Lúcia Chaves - "Os infinitos cantos do ateliê" - maio/2014 



Walter de Queiroz Guerreiro - "Passagens" - agosto/2014 



Enock Sacramento - 4.2 Gonzalez e Soncini - 2019



Walter de Queiroz Guerreiro - Luz e sombras - 2021



Walter de Queiroz Guerreiro - "Um dia um olhar..." - 2024



Katiana Machado - "Veredas" - 2025


 
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